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sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Malvados há muito tempo (anos) merece menção. André Dahmer é fabuloso ao concatenar um humor surpreendente às questões mais prementes do mundo hodierno, tais como amor, ética, política, economia, guerra. Pérolas inúmeras, dentre umas quais as mais recentes: "Casamento é um contrato entre duas pessoas que querem brigar para sempre",

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Resolvi postá-lo aqui, embora ele já seja modestamente famoso, tanto porque merece ser mais (embora infelizmente - o itálico é para explicitar que não estou me lamentando - não vá ser eu que vá torná-lo, com minha dúzia de leitores, se muito) quanto porque ele vem ao encontro das idéias que tenho exposto, com ilustração, ilustreza, concisão, freqüência e beleza admiráveis. Até gostaria de elogiá-lo mais, mas há coisas que simplesmente nos pegam de jeito, de tal jeito que não conseguimos dizer mais do que 'é isso!'. Que fique, pois, com minha afirmação, singela, ainda que exclamativa.

Também aproveito para divulgar o ClickÁrvore - mediante um curto cadastro você pode mandar plantar uma árvore por dia, numa tentativa de tentar preservar a Mata Atlântica.
Também um pequeno jeito de engendrar vida, pois, como vimos, é efetivamente difícil atingir os fins sem passar pelo meio, a menos, é claro, que realmente queiramos atingir o fim, com toda a literalidade - então basta passar por cima do meio. Ou, como diria o humorista, falando mais sério do que nunca (afinal humoristas estão constantemente realmente significando aquilo que dizem tanto quanto qualquer outro, com o acréscimo de sua graciosa desenvoltura - tanto a mentira, neste exemplo um semblante rotineiro ou mesmo irritadiço disfarçando um espírito fagueiro, quanto a verdade têm a capacidade de nos fazer rir), o meio ambiente é tão importante que deveríamos preservar todo ele!

Se o querido amigo travestido de leitor bem notaste, é oportuno falarmos finalmente do humor. Amor, como diria o galhofeiro Oswald. O amor nos salva duplamente: torna suportável ou até querido o que era insuportável ou ruim, e nos evita de deixar-se envolver levianamente com belezas de tal modo efêmeras que poderiam, no seguinte instante, ser por nós mesmos completamente ignoradas ou inclusive que poderiam enfear-se como paixão negra e amargamente arrependida. O princípio do amor é a constância, é um princípio de um extremo tão belo, tão belo num mundo heraclitiano.
Pois bem, muito do que o amor deglute é feito pelos dentes escancarados e mordazes do humor faceiro. Cabe ao amado a elegância de entender que é preciso mordiscar se queremos tornar o que aparece repentinamente em nosso paladar algo digerível. Tamanho aprendiz tem que ser o amante! - para aprender a gostar daquilo que desconhece, e que lhe aparece como estranho, como insosso, como asqueroso. Nada como um terceiro excluído para tornar leves as transferências de culpas - o riso é um ruído. E a um casal bem convém uma platéia, para se aperceber de quão ridículo está sendo, traduzo a quem não tem um dicionário ou a quem tem preguiça, de aperceber quão exagerado, grotesco (isto é, da gruta, da caverna, quão grosseiro, troglodita), insignificante, mesquinho, desditoso está sendo. E só o humor para tornar palatável as más educações de cada um - ou os seus desejos de educar. O exemplo mais claro que disponho é o de Andy Kaufman, e mesmo a teoria em torno do seu tipo de humor é ainda mais luz: dizia-se que queria que as pessoas rissem do âmago, lá do gut, das entranhas, do estômago, isto é, que não tivessem a opção de sorrir, de ser simpáticas, para ele tolerar não era uma opção: se podia odiá-lo ou adorá-lo. Conseguia um ou outro submetendo o público a sandices típicas de um bobo - seu personagem mais famoso era um - consternando a platéia a irritar-se ou a tornar-se ela mesma boba, sendo assim capaz de alegrar-se com uma bobagem. Expunha o mesmo espetáculo, e o modo como um ou outro reagia dependia então simplesmente de como este espectador tinha se constituído, constituído seu humor, e de como, através da sua história, tinha reagido (a palavra reação é inteiramente adequada) a situações de pressão. É ali que se distingüe quem é quem, os altruístas dos egoístas, os masoquistas dos sádicos. Um pouco do seu desastre enquanto artista é que ele insistia em contar a mesma piada, isto é, encenava o mesmo conteúdo, embora sob diversas formas, com aspectos diferentes; seu humor, que é daqueles de criar muitos desafetos, embora também o seja de criar muitos afetos, acaba por sucumbir numa sociedade que não sabe conviver com minorias, e que acha que a maioria, mesmo que esta maioria se distingua (se o leitor já me entendeu minimamente, percebeu que na minha concepção de mundo não existem erros, mesmo que eles não estejam italizados - além do quê, o uso se pauta pela gramática tanto quanto a gramática se pauta pelo uso, e cabe singelamente a nós ensejar o {que cada um acha} melhor, seja ele o instituído ou não) da minoria por apenas uma pessoa (afinal, o próprio conceito de maioria é o da metade mais um), que esta maioria é a lei e deve ser obedecida. E um pouco do seu ostracismo público decorre de algo que era muito irritante para alguns (e creio que Andy era tão bobo que, projetivamente, confiava que a platéia, em termos de visão de mundo, iria até ele, e não precisaria ele ir até a platéia): não saber se algo é verdade ou é mentira. Mas quando se é bobo não importa que aquilo de que se ri seja verdade ou mentira, importa apenas que se ria. É um grande elogio, e demonstração suprema de força, despedir-se de alguém sem estar triste: afinal, se vamos a admirar alguém, que se faça pela sua presença antes do que pela sua ausência. Presença de espírito.
Charles D'Ambrosio é pontual: o riso {a alegria} é iminentemente social, o choro {a tristeza} é privativa, privada. Adoro como as palavras, as noções se encaixam. Parece que estão fazendo sexo. Prazeres quase orgásmicos quando não orgásmicos, além de férteis.
Mas talvez o mais importante acerca do humor seja entender que ele é líquido. Não adianta dar murro em ponta de faca, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. O que nos leva à conclusão de que se suas mãos forem humorísticas, conseguirá o que bem quiser. Nossas mãos já são bem lépidas e já são bem bobas, é questão só do resto dos corpos também vir a ser. Afinal, corpos muito autoritários não suportariam mãos tão gentis...

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