Literatura filosofia humor poesia



segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Laços de Família

"A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando" Uma das habituais machadadas, em seu 'Espelho: fundamental é a segunda alma, construída a partir dos reconhecimentos. Reconhecer é onirrevelar o valor. É, portanto, fazer dele uma experimentação.

*

Wes Anderson's Darjeeling Limited and Phil Morrison's Junebug.

Mas não é preciso ir tão longe. Toda a pessoalidade é feita por nós.
Então basta amar o desconhecido? Talvez seja mais pungente amar o ignorado.

Não é engraçado que um e outro briguem e discutam para julgar de que outro foi a irritação que começou a me irritar? E que se batalhe pela última negação, mesmo que ela seja 'sim, senhora' (não estamos no ponto de confundir afirmações com sins, não é mesmo? A ironia é clara, no tom de voz frustrado de quem diz reconhecer no outro uma senhoria - a mesma voz que proclama, ressentido: estou amando! querendo mostrar, com isso, que está à mando, e que não está sendo amado, que não passa de um... ignorado).

Não é lindo quando estes silêncios dizem tudo? Nós, os últimos dos ressentidos, sentamos lado a lado, negociando dores invisíveis, caladas e pouco disfarçadas, porque o Natal não nos trouxe outras máscaras, que não as velhas conhecidas, as familiares. Como ser um estupendo ator para um público íntimo? Adivinham todos os teus trejeitos, metade por serem os deles também.

Muitos de nós fazem o extremo esforço de esquecer alguma coisa. Só podemos realmente esquecer de alguma coisa se ela esteve em nossa memória (por isso pouco se diz que esquecemos do que imediatamente vemos ou ouvimos, quando é o caso, ignoramos; ou que esqueçamos aquilo a que nossa atenção se presta, quando é o caso, dizemos distrair; o que se perde não é a percepção sensória nem a capacidade atencional, que são por si próprias fugazes e mutáveis em relação a seus objetos, mas a percepção mnêmica, a percepção de uma impressão que deveria estar gravada em algum lugar, só não sabemos
qual - os esquecimentos são feitos através de rupturas ou enfraquecimentos dos vínculos neuronais), isto é, conceitualmente, só esquecemos de algo
que nos foi familiar. De algo passado e importante o suficiente, algo que se soube.

Inocentes, talvez ainda haja. Aqueles que não se sentem amados e não desejam o ser.

Humilhar com ternura é o jogo dos senhores. Dos que almejam possuir, ganhar. É um tipo de processo educacional. Fazem do orgulho, aquele animal selvagem, um incompetente caçador. Mendiga, então, as migalhas dos olhares, das palavras, come sofregamente na mão, e a lambe. Mas os que renunciaram ao orgulho ou os que nunca o conheceram não são domesticados. Lambem a mão por selvageria ou amor puro.
Lancinante.



-----
* The Cranberries - Ode to my family

sábado, 29 de novembro de 2008

De tanto te amar,
Logo mais não haverá mais
Nada a matar

*




**
"Desde que a experiência me ensinou ser vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas de que me receava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, resolvi, enfim, indagar se existia algo que fosse o bem verdadeiro e capaz de comunicar-se, e pelo qual unicamente, rejeitado tudo o mais, o ânimo fosse afetado; mais ainda, se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema. Com efeito, as coisas que ocorrem mais na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem se resume, ao que se pode depreender de suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. [...] Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige. [...] Por último, a honra representa um grande impedimento pelo fato de precisarmos, para consegui-la, adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram."***


------------------------
* Salvador (Dalí): Atmosferic skull sodomizing a grand piano.
** Norah (Jones): What Am I To You?
*** Benedictus (Spinoza): Tractatus de intellectus emendatione.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

domingo, 28 de setembro de 2008

Chegar antes ao futuro

Drive your cart and your plow over the bones of the dead.*

















Isto é, chegar logo ao melhor: ascender em poder, ascender em prazer. Tornar-se livre, forte e ter para si tal sensação. Melhor expresso: não tornar a si mais vigoroso e independente, antes tornar-se outro, sim, mais robusto e autônomo - e proporcionar a este outro tal sensação. Natural, portanto, que o si, enquanto se esvai, experimente, até mesmo por comparação, sensações de enfraquecimento, impotência - ele está enfrentando suas próprias fraquezas, está passando por cima de suas próprias vulnerabilidades, está provando daquilo que lhe é mais doloroso, está se expondo abertamente para o que em si é inépcia. Há algo de mais aviltoso em um si que só morre se morrer o si. Não é agradável, por exemplo, enfrentar o objeto do seu temor, embora agradável seja ter enfrentado esse objeto: significa que ele tornou-se menos temível.

O futuro está na mente de alguns visionários: perceber quem são é já o primeiro passo para tornar-se um. Os que fazem o futuro, que, antes disso, o projetam (projetar: lançar à frente), e desse modo, produzem sua própria sorte: o mundo, o destino são reflexo do seu império, são os meios pelos quais realizam suas vontades e seus mais íntimos desejos. Não se chega lá sem vibrante imaginação e criteriosa perspicácia. Quem não é um visionário está morto, it's only a matter of time - matéria de tempo, apenas.

-----

* William Blake: Proverbs of Hell, in The Marriage of Heaven and Hell. Dirija, sagaz, carroça e arado sobre os ossos dos mortos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Resultado, Olimpíadas - Modalidade: Proposição

Medalha de bronze: Pode ser
Medalha de prata: Sim
Medalha de ouro: Vamos

O Vamos é sobremaneira superior aos seus rivais, de tal forma que venceria com qualquer pontuação.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Quão logo é agora?*




Ojaypatrick - Sunset soon forgotten

"Dark and difficult times lie ahead. Soon we must all face the choice between what is right and what is easy. Remember that you have friends"**

Sombrios e difíceis tempos quedam à frente. Em breve, nós todos devemos encarar a escolha entre o certo e o fácil. Lembra que tens amigos...

Dumbledore é sábio o suficiente para saber que não existe o errado (e também Morrisey). Escolhendo o fácil, atuaremos no sentido de tornar nossos amigos menos leais...

Além disso, aquilo que à primeira vista se mostra fácil aparece diferente nas vistas seguintes, mais profundas: uma vida com amigos menos leais é mais difícil...

Convém desconfiar do efeito mais imediato: de fato ele é o mais básico, mas é como numa partida de xadrez. É um jogo de se-então imenso: de pouco adianta tomar a rainha do amigo adversário se com isso nosso rei fica exposto a um cheque-morte (eis o x da questão). Está pré-datado. Convém antever o próximo lance, e então o próximo, e depois o próximo. Jogar lixo ao chão é mais fácil, porém, como não viveremos assim com o lixo, mais tarde ele dará mais trabalho (sim, dará até mais emprego, o que não é intrinsecamente algo bom: como vimos, dar trabalho é algo fácil, o mais importante é dar o trabalho certo, isto é, numa linguagem mais exata, dar o melhor trabalho, que geralmente é o mais útil). Sermos imediatistas é importante, porém não é aconselhável que a imediatez de alguns efeitos seja o único critério. Claro que, ao lidarmos com muitos critérios, ou seja, com muitas variáveis, nossa análise-cálculo fica mais complicada, mais difícil, mas a exatidão, valiosa a filósofos, cientistas e vulgos, cobra seu custo, que nada mais é do que o estritamente necessário.

"Serei tão breve que na verdade já terminei:"

Salvador Dalí - La persistencia de la memoria


---
*The Smiths - How soon is now? in: Meat is Murder. Rough Trade, London, 1985:

eu sou o sol
eu sou o ar
de uma timidez que é criminalmente vulgar
eu sou o sol e o ar
de nada em particular

fecha tua boca
como podes dizer
que eu abordo as coisas do jeito errado?
eu sou humano e preciso ser amado
tanto quanto todos os outros corpos precisam

eu sou o filho
e o herdeiro
de uma timidez que é criminalmente vulgar
eu sou o filho e o herdeiro
de nada particular

tu calas a boca -
com que fundamento dizes
que faço as coisas do jeito errado?
eu sou humano e preciso ser amado
só como todas as outras pessoas precisam

há um clube, se gostarias de ir
podes encontrar algum corpo que realmente te ama
então tu vais, e permanece na tua
e tu sais na tua
e tu vais pra casa e choras
e desejas morrer

quando tu dizes vai acontecer "agora"
bem, quando exatamente você significa?
veja, eu já esperei muito longamente
e toda minha esperança já era

Ah, silencia a boca!
como podes dizer
que lido com as coisas do modo errado?
eu sou humano e preciso ser amado
justo como qualquer mais precisa

**Citação de J. K. Rowling, Harry Potter and the Goblet of Fire. Aquilo com cabeça, asas de águia e corpo de leão é meu, como de costume.

Os filósofos talham conceitos, os artistas, metáforas, e os bobos, equívocos.
Equívoco equivale a erro somente para lógicos muito duros, que não sabem aproveitar a simultaneidade. O bobo beneficia-se da ambigüidade do tempo.


Astrovine - Time Sink

sábado, 28 de junho de 2008

Vem de Janus, vem de antigamente (as palavras serão luz quando decifrarmos a lógica)


Textos orgânicos apodrecem. Tomem este, à guisa de exemplo, em bom estado de putrefação:
O que eu estava dizendo é que pouco saberemos amar se tivermos o que esconder, se tivermos o que guardar. A humanidade quer ir por terra, seguro caminho. Depôs os tempos áureos em que descobriu o mundo. Onde uns embarcavam no enjôo para enfrentar monstros inimagináveis e o próprio fim do mundo, e outros viviam mais ou menos gentilmente, cultuando a chuva e vendo deuses pela terra. Não era um tempo de ingenuidade: era o tempo em que a perdíamos. Era o deslinde e o desbunde da ciência, da filosofia, das artes. Que nos sobra hoje? Queremos trabalhar! Perdemos a ingenuidade mas não deixamos de ser tolos.
Havíamos chegado à última fronteira da razão. Mas não havíamos ainda entendido de todo o racionalismo. Só bastava então uma mísera ação. Mas como ainda não havíamos sido românticos o suficiente, não ultrapassamos a fronteira: apaixonamo-nos pelo conhecimento. Hoje não precisamos mais fantasiar, assistimos às nossas fantasias na tela de cinema, num aparelho televisivo ou num monitor. No clímax da crise da representação. Claro, enquanto formos apaixonados, sempre estaremos em crise. E sempre desejaremos o clímax. Põe a mão na testa e bebe mais que o Bukowski. Ou Jim. Ou qualquer ídolo drogado. Não falo mal dos drogados, tenho uma noção em comum com eles, eu também quero mudar o mundo e a realidade; além do quê, às vezes me visto dum: como então falaria e faria ouvidos aos jovens noctívagos senão com uma bebedeira? A juventude, para se opor aos sisudos adultos, cheios de trabalhos até mesmo inúteis, faz a antítese: sexo e diversão. Não deixam de ser menos alienados 'que os que trabalham o dia inteiro e então assistem telejornal com telenovela, se divertindo a noite inteira e fingindo que estudam. Todos sustentamos a máquina, seja por nós mesmos, seja através daqueles que nos sustentam, seja com prazer, seja com cansaço, com a droga que nos exaure ou com a que nos alivia. Somos dialéticas sem sínteses.
A melhor diferença entre um apaixonado e um amante é exatamente esta: o amante, por não estar comprometido através da exclusão, é tantas vezes mais apaixonado que o outro, que será, efetivamente, um grande amante, um apaixonado por tudo, se entender bem o que significa amar.
Sou claro? Vês através de mim? Porque não são intrinsecamente diferentes, a paixão e o amor são comumente confundidos. O grande desafio do conhecimento é distingüir, com a sutileza que a cuidadosa lógica implica, aqueles que são de semelhança tal que até aparentam ser o mesmo.
"Alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo apenas colocado uma nova máscara de papelão (...) o que esses malditos revolucionários precisam aprender (...) é que a coisa precisa vir de dentro pra fora. Não se pode dar a um homem um novo governo como se fosse um novo chapéu e esperar um homem diferente dentro desse chapéu": Charles Bukowski, em Notas de um velho safado.
O que é que é vem mais de dentro para fora, do que a ação, o conhecimento e o amor? E o individualismo é a mais verdadeira das democracias, abracemo-lo com todos os braços que tivermos. Porque é através do abraço que se entende o todo. Então nem seremos castos especifistas nem cabais absolutistas (e entenderemos, por fim, que, a despeito de menos convir para alguém ser um apaixonado por somente uma área de conhecimento, para conhecer mais convém se apaixonar), mas senhores do meio, amplos conhecedores e ainda apaixonados pelo desconhecido. O individualismo, sendo princípio, também será um fim (já entendemos o eterno retorno?).
Para que te quero? Somos já crianças? Sabemos brincar de paixão? Até hoje, a graça esteve em acreditar nas próprias aparências que fabricamos (como quando com a luz do fogo projetamos as sombras das nossas mãos nas paredes das cavernas fingindo animais, ou quando adivinhamos as formas das nuvens, ou com vodu, ou com outras superstições, religiosas ou não, embora pareça que todas as superstições são religiosas), mas desde que o primeiro de nós soube duvidar do próprio desejo, e então fingi-lo para, em vez de crer e adorá-lo (e fingir sem saber que o fazemos), rir sobre ele, mostrando-se superior, determinante em vez de determinado, pudemos nos despir das depreciações (por mais que ainda achemos ser irônico - quando alguém ri sobre nós é porque nos deprecia - vaidade que não deseja nos deixar ser causa ou inspiração para alguém alegrar-se), e possuir o poder de nossa alegria em nossas próprias mãos. E bocas. E olhos. E ouvidos, é claro. Não somos, os atores, os cientistas da arte de interpretar? Nesse sentido, ser chamado de mau ator pode ser um elogio... Para quê quereríamos que a aparência tomasse o aspecto de verdadeiro, isto é, para que quereríamos que não transparecesse nosso fingimento? Se a verdade perdeu para a fé, e ainda há espaço para dúvidas, e ainda esses são os motivos da nossa mais imensa alegria... Preferimos não mais ser religiosos ou cientistas, se um ou outro significarem ter dogmas ou certezas - ter a luminosa sapiência de que somos capazes de inventar e engendrar o próprio afeto!: então o cômico, de rir do que o destino reservara, passou a ser rir daquilo que notamos ser fingimento mal-disfarçado (escracho). Sofre aquele que não sabe do engano, quem o sabe, dele o ri. Não nos vestimos como o vulgo? Comédia! Porém: será ainda possível ser escrachado com elegância? Seriam esses caminhos confundidos que proponho paradoxos? Bem, eu responderia a isso, se a tanto me financiassem. Uma vez me perguntaram: e como pode uma afirmação começar com se? Não é engraçado? Somos generosos à medida em que podemos (isto é, à medida em que amamos, já que é o amar que aumenta nossa própria potência - amar a deus sobre todas as coisas, mas tal conselho não se dirige ao eu? Sendo então o eu o princípio, também será um fim)... Seria preciso um tipo muito especial de pirata para dar o que não se tem... E a despeito destes mares nunca dantes navegados, não estamos distante de encontrá-los...
Assim estranhamente cobramos do marginalizado: mas só se ele fosse muito bobo para respeitar quem não o respeita. Sendo a nossa riqueza feita à custa da pobreza dele, por que não conviria a ele achar que nós somos seus inimigos, e que então antes ficasse ele rico e nós ou outros pobres? Dito de maneira mais clara (temos mais consciência da inveja do que da ambição, por motivos histórico-educacionais): por que se alegraria (desejaria que fôssemos ricos) da nossa alegria, se a nossa alegria implica a sua tristeza? No entanto, encontramos tão belos seres, como cachorros cujo olhar encolhido olha com a humildade de quem espera uma pancada.
Mas nada disso é importante, não é mesmo? A indiferença nos protege. Somos apolíticos. Tudo o que precisamos saber sobre ética é não comer os amigos, não foder com ninguém se a namorada estiver presente, e não ser pego se mentir. Arte é aquilo me mantém um zumbi. E, finalmente, podemos nos alegrar com a tv ou enchendo a cara e catando um corpo num lugar escuro com música alta de gosto duvidoso. O resto é o lixo, que nem pergunto aonde vai. Ai, Estamira, ai.

sábado, 24 de maio de 2008

Um pouco do invisível na terra à vista

Contamos com que este à vista não seja o modo de pagamento pelo qual se vende a terra.
"Sobre a desigualdade social": sejamos espertos, sejamos modernos - a democracia está primeiramente no diálogo.

sábado, 3 de maio de 2008

Da umidez do conhecimento ou
Minha vida em sete linhas

Através das lágrimas
Que em ti causei,
Aprendi o que de ruim
Havia em mim;
E mudei.
Mas nunca deixei de questionar:
Por que chorar?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Isabella Nardoni

O caso é o exemplo típico de como os telejornais são tão pouco inteligentes, eficientes e úteis. A única utilidade que a grande amplitude na cobertura alcança é forçar as autoridades responsáveis pela investigação a serem mais minuciosos e cuidadosos, o que não deveria ser necessário, bastando simplesmente que tais autoridades fossem competentes e éticas. Então as pessoas acreditam e investem afetivamente naquela tela plana e multicolorida e nas idéias que ela causa. Alguns até saem por aí gritando "assassino!" e ficando de tocaia a fim de linchar o próximo.

O caso recebe prioridade em todos os telejornais, mesmo que não haja nenhuma informação nova a ser repassada, aliás, praticamente não há nenhuma informação nova relevante desde a primeira divulgação do ocorrido. Então o que é dito num dia é desdito no outro para no seguinte ainda ser criada uma terceira hipótese. Muito trabalho para pouco resultado.

Depois o telejornal ainda me diz que a morte da menina causou grande comoção em todo o Brasil, sendo que o grande responsável pela comoção foi o próprio telejornal, exatamente porque insiste nisso como se fosse a coisa mais importante que existe no mundo. É a santa ingenuidade de acreditar que o público quer ouvir exatamente o que se quer falar, o que não deixa de ser verdade já que o público assiste o telejornal independentemente do que veiculam nele. Assim acreditam estar informados do que ocorre no mundo, o que também é um jeito de alienar-se do que acontece em nossa aldeia e daquilo que podemos fazer para melhorá-la. Ficamos mais próximos e pessoais (isto é, nos causa mais afeto) de uma menina morta com quem nunca falamos do que com nossos próprios vizinhos.

Os católicos não perceberam, mas os meios de comunicação em massa são a besta, e a internet é o juízo final. Podemos procurar pela informação que queremos da fonte que queremos. No entanto, as pessoas não querem procurar, muito menos encontrar, elas nem querem querer (adivinha quais são duas das expressões mais buscadas nos sítios de pesquisa? Não por acaso, Isabella Nardoni e dengue). Só querem descansar do seu dia de trabalho, que é mais árduo e menos eficiente do que deveria, então se distraem com uma novelinha que já vem pronta na tv, seja ela real ou fictícia - ou ambas, como o bbb, afinal, real tudo é, inclusive qualquer jogo de aparências. É quase incrível, as pessoas se emocionam mais com ela do que com sua própria vida. É que talvez, se não o fizessem, teriam muito o que chorar.

A repercussão da morte de Isabella veio a ocupar o espaço destacado de divulgação dos casos de dengue. Temos o quê, uns noventa casos de morte? Sob este critério, que é um critério relevante, a notícia dengue seria 90 vezes mais importante que a notícia Isabella. Através da notícia da dengue, podemos perceber como é mais importante pro telejornal contabilizar mortos e feridos do que divulgar meios de evitar e diminuir mortes e ferimentos. O exemplo se torna mais claro se pensarmos em acidentes de trânsito. Na maior parte das vezes, a tv só faz propaganda contra a direção alcoolizada (freqüentemente em campanhas que são financiadas pelo governo ou pelas próprias fabricantes de bebidas alcoólicas), que é um dos grandes fatores de risco, é claro, mas acaba por negligenciar outras atitudes que podemos tomar ou mesmo o espaço para discussão do problema - os diagnósticos (isto é, os números) vêm prontos das instituições de pesquisa, porém as soluções? A tv é um meio, e será tão prenhe de questões relevantes a tratar quanto é prenhe a cabeça de quem concebe os programas transmitidos nela. Mas o que os jornalistas efetivamente sabem? Grande parte das informações que repassam eles adquirem de outras pessoas! Não sejamos tão exigentes, porque poderia ser pior: comentários sobre a vida extraprofisional de famosos. Vivemos de sensacionalismo em vez de educação, o que não deixa de ser estranho, já que a educação é tão violenta quanto uma sensação. Tampouco se trata de achar que um objeto frio, impessoal, unilateral e que mantém relações não-recíprocas seja capaz de educar. Exatamente porque o que educa é o afeto e não a informação. Só mesmo numa acepção muito especial você enquanto ia para a escola ver um desenhinho no livro de uma mitocôndria e ler sobre sua função estava sendo educado. Também os professores mantêm a prática de repassar informações em prejuízo de proporcionar experiências cognoscitivas. Ainda não aprendemos a educar e, enquanto não o fizermos, nossa sociedade travará eternamente sua luta do altruísmo em detrimento do egocentrismo - aquilo que alguns chamam, às vezes fervorosamente, de bem contra o mal.

Não obstante, o jornalismo ainda é um dos únicos campos, bem como o das relações amorosas e o comércio (especialmente o capitalista, pois há algo nele de antieconômico, ao privilegiar a posse e o uso privativo, incentivando assim a produção excessiva de bens e sua respectiva exacerbada disponibilidade, o que, em termos simples, chamamos de desuso), onde exclusividade ainda é um elogio.

Os assassinos, os flavivírus, as emissoras de tv não são más, só praticam o seu desejo de ser excludentes. Até mesmo as igrejas fazem isso!

Os tolos tomam por qualidade aquilo que é abuso de poder. Nada é mais terrível e contraproducente do que ser o único capaz de oferecer algo que todos querem ou que é bom para todos. Mas a todo momento, utilizamo-nos disso como autopropaganda. Nesse sentido, preocupamo-nos mais em apontar o fracasso dos outros - e inclusive causá-lo - do que em nos aprimorarmos naquilo que fazemos, e nos tornarmos bons por nós mesmos, isto é, além de todos os parâmetros medíocres, comparações infames, até mesmo covardes, onde somos apenas considerados bons em detrimento de outras pessoas.

Se queres saber, os jogos de poder, de desejo não me excitam mais; além do quê, eles perecem como o amor não o faz. Como me contentaria com pequenos arranhões depois de ter conhecido as garras do amor?

Fora isso, uma das únicas questões a que procuro alternativas é o fato de a educação dificilmente deixar de ser um jogo de poder, porque quando não somos educados, somos educadores, para além do princípio da razoabilidade, porque o eu tende a achar-se sempre razoável, e quando julgar que o desejo do outro é desprovido de razão, convencido estará de que ele próprio está coberto de razão.

Quantos percalços nos dão, os limites de nossa lógica apaixonada...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Malvados há muito tempo (anos) merece menção. André Dahmer é fabuloso ao concatenar um humor surpreendente às questões mais prementes do mundo hodierno, tais como amor, ética, política, economia, guerra. Pérolas inúmeras, dentre umas quais as mais recentes: "Casamento é um contrato entre duas pessoas que querem brigar para sempre",

,
.
Resolvi postá-lo aqui, embora ele já seja modestamente famoso, tanto porque merece ser mais (embora infelizmente - o itálico é para explicitar que não estou me lamentando - não vá ser eu que vá torná-lo, com minha dúzia de leitores, se muito) quanto porque ele vem ao encontro das idéias que tenho exposto, com ilustração, ilustreza, concisão, freqüência e beleza admiráveis. Até gostaria de elogiá-lo mais, mas há coisas que simplesmente nos pegam de jeito, de tal jeito que não conseguimos dizer mais do que 'é isso!'. Que fique, pois, com minha afirmação, singela, ainda que exclamativa.

Também aproveito para divulgar o ClickÁrvore - mediante um curto cadastro você pode mandar plantar uma árvore por dia, numa tentativa de tentar preservar a Mata Atlântica.
Também um pequeno jeito de engendrar vida, pois, como vimos, é efetivamente difícil atingir os fins sem passar pelo meio, a menos, é claro, que realmente queiramos atingir o fim, com toda a literalidade - então basta passar por cima do meio. Ou, como diria o humorista, falando mais sério do que nunca (afinal humoristas estão constantemente realmente significando aquilo que dizem tanto quanto qualquer outro, com o acréscimo de sua graciosa desenvoltura - tanto a mentira, neste exemplo um semblante rotineiro ou mesmo irritadiço disfarçando um espírito fagueiro, quanto a verdade têm a capacidade de nos fazer rir), o meio ambiente é tão importante que deveríamos preservar todo ele!

Se o querido amigo travestido de leitor bem notaste, é oportuno falarmos finalmente do humor. Amor, como diria o galhofeiro Oswald. O amor nos salva duplamente: torna suportável ou até querido o que era insuportável ou ruim, e nos evita de deixar-se envolver levianamente com belezas de tal modo efêmeras que poderiam, no seguinte instante, ser por nós mesmos completamente ignoradas ou inclusive que poderiam enfear-se como paixão negra e amargamente arrependida. O princípio do amor é a constância, é um princípio de um extremo tão belo, tão belo num mundo heraclitiano.
Pois bem, muito do que o amor deglute é feito pelos dentes escancarados e mordazes do humor faceiro. Cabe ao amado a elegância de entender que é preciso mordiscar se queremos tornar o que aparece repentinamente em nosso paladar algo digerível. Tamanho aprendiz tem que ser o amante! - para aprender a gostar daquilo que desconhece, e que lhe aparece como estranho, como insosso, como asqueroso. Nada como um terceiro excluído para tornar leves as transferências de culpas - o riso é um ruído. E a um casal bem convém uma platéia, para se aperceber de quão ridículo está sendo, traduzo a quem não tem um dicionário ou a quem tem preguiça, de aperceber quão exagerado, grotesco (isto é, da gruta, da caverna, quão grosseiro, troglodita), insignificante, mesquinho, desditoso está sendo. E só o humor para tornar palatável as más educações de cada um - ou os seus desejos de educar. O exemplo mais claro que disponho é o de Andy Kaufman, e mesmo a teoria em torno do seu tipo de humor é ainda mais luz: dizia-se que queria que as pessoas rissem do âmago, lá do gut, das entranhas, do estômago, isto é, que não tivessem a opção de sorrir, de ser simpáticas, para ele tolerar não era uma opção: se podia odiá-lo ou adorá-lo. Conseguia um ou outro submetendo o público a sandices típicas de um bobo - seu personagem mais famoso era um - consternando a platéia a irritar-se ou a tornar-se ela mesma boba, sendo assim capaz de alegrar-se com uma bobagem. Expunha o mesmo espetáculo, e o modo como um ou outro reagia dependia então simplesmente de como este espectador tinha se constituído, constituído seu humor, e de como, através da sua história, tinha reagido (a palavra reação é inteiramente adequada) a situações de pressão. É ali que se distingüe quem é quem, os altruístas dos egoístas, os masoquistas dos sádicos. Um pouco do seu desastre enquanto artista é que ele insistia em contar a mesma piada, isto é, encenava o mesmo conteúdo, embora sob diversas formas, com aspectos diferentes; seu humor, que é daqueles de criar muitos desafetos, embora também o seja de criar muitos afetos, acaba por sucumbir numa sociedade que não sabe conviver com minorias, e que acha que a maioria, mesmo que esta maioria se distingua (se o leitor já me entendeu minimamente, percebeu que na minha concepção de mundo não existem erros, mesmo que eles não estejam italizados - além do quê, o uso se pauta pela gramática tanto quanto a gramática se pauta pelo uso, e cabe singelamente a nós ensejar o {que cada um acha} melhor, seja ele o instituído ou não) da minoria por apenas uma pessoa (afinal, o próprio conceito de maioria é o da metade mais um), que esta maioria é a lei e deve ser obedecida. E um pouco do seu ostracismo público decorre de algo que era muito irritante para alguns (e creio que Andy era tão bobo que, projetivamente, confiava que a platéia, em termos de visão de mundo, iria até ele, e não precisaria ele ir até a platéia): não saber se algo é verdade ou é mentira. Mas quando se é bobo não importa que aquilo de que se ri seja verdade ou mentira, importa apenas que se ria. É um grande elogio, e demonstração suprema de força, despedir-se de alguém sem estar triste: afinal, se vamos a admirar alguém, que se faça pela sua presença antes do que pela sua ausência. Presença de espírito.
Charles D'Ambrosio é pontual: o riso {a alegria} é iminentemente social, o choro {a tristeza} é privativa, privada. Adoro como as palavras, as noções se encaixam. Parece que estão fazendo sexo. Prazeres quase orgásmicos quando não orgásmicos, além de férteis.
Mas talvez o mais importante acerca do humor seja entender que ele é líquido. Não adianta dar murro em ponta de faca, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. O que nos leva à conclusão de que se suas mãos forem humorísticas, conseguirá o que bem quiser. Nossas mãos já são bem lépidas e já são bem bobas, é questão só do resto dos corpos também vir a ser. Afinal, corpos muito autoritários não suportariam mãos tão gentis...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Princípios de Economia (outro título pouco satisfatório para outro texto pouco satisfatório)

E do porto nos partimos,
Deixando o aceno à mão esquerda -
Que a direita
Não tem certeza doutra,
Mas suspeita*.

Somos homens de mar -
Ou de deserto.
Unusual uso da água -
Para arder de fogo.

Quem saberia que
Economizar a existência
Seria exatamente torná-la vida?

Sim, então muitos. Mas da ética servindo à economia, antes o inverso. Se existimos pelo desejo do prazer, é outro algo que existe em nós; há de se achar o prazer do desejo, misturar fins em meios, corrompê-los, fazer entender que o afã do desejo não é ter um fim, mas principiar**. É assim também que a lógica deriva da ética. É tempo de entender o que é economia.
Economizar não é tornar a existência menor. Aristóteles talvez diria que a areté estaria entre o perdularismo e a avareza, entre a riqueza e a pobreza. Economizar é antes a gestão da quantidade, a frugalidade por excelência. A questão não é evitar o muito, mas saber usar o pouco, saber usar o pouco para chegar ao muito. Que o fim seja o meio não equivale ao meio ser o fim (assim como não se diz que se todos os homens são mortais, que todos os mortais sejam homens***: a igualidade e a identidade são erros de interpretação matemática: leia-se oito resolve, soluciona, resume - palavras químicas que se referem a procedimentos - cinco e três - - - Um é o primeiro número, assim como deus é o primeiro conceito; todos números derivam de um, descobrimos outros deuses, mas então o infinito é um, um que se desdobra; e se então um é o número mais solitário, nem por isso deixa de ser o mais completo, assim como se deus é o primeiro conceito, nem por isso está acabado, creio até que é o que mais está sendo pensado, para entender isso, teríamos que entender o que é deus para um sujeito, e deus vai ser sempre um trocadilo se não começa por um eu – que vocês não me entendam a esta altura não é um problema da fundamentação teórica que requeriram, muito menos da prática...), portanto, o meio é menos o equilíbrio do que o uso dos extremos – entendemos o meio como a condição. Riqueza, bem entendido, então será a abundância dos meios, das condições. Há condição suficiente: a vida se dá quando as condições suficientes estão dadas, e o que entendemos como suficiência tem para nosso corpo, nossa mente infantis, uma tradução: satisfação. Vamos do necessário ao desejável, mas é o desejado que define o necessário, que o condiciona, poderíamos dizer. O fim é claro: é sempre muito, é tanto muito que por isso não há fim último, e o fim é ele mesmo infinito.
Entendamos o que é frugalidade: não somente usar o pouco para fazer o muito, mas usar o muito para fazer o muito, com um porém: a frugalidade é generosa para além de si.
Estamos sempre entre dois amores (princípio do meio): os que tivemos e os que não temos.
O problema está longe de ser concordar com a veracidade de uma afirmação, ou que ela seja necessariamente verdadeira, diante de certos axiomas. Está em concordar com os axiomas! Ou melhor, a solução está aí! Mas concordar com os axiomas não significa necessariamente que os axiomas não sejam ambíguos (que oito possa ser a soma de cinco e três em nada impede que também seja a soma de dois e seis)...
A felicidade é o bem-estar consecutório, em suas duas acepções simultaneadas. A sabedoria é só mais um meio. O poder serve ao bem e ao mal, mas o mal não é nada. A felicidade é o bem mais primordial, isto é, principal; e ele é, na medida do razoável, autosuficiente.
E enquanto vejo a terra, existe algo que diz que todos os governos são cleptocracias. Timoneiros, antes de franzerem os cenhos, lembrem-se que tendes às mãos também governos...
Já aprendemos a nos satisfazer com pouco? Ou escutamos o desejo com orelhas grandes, almejando o fim por vezes antes do que os próprios meios?
Já aprendemos que nos satisfazer com pouco não precisa implicar em querer pouco?
Se você é um leitor com bom gosto, talvez tenha se enfarado com esse papinho de fins e meios (é possível ser um administrador sem a chatice de um administrador, não é mesmo? Por outro lado, os filósofos se autodestroem por falta de pragmatismo ou por não saberem cantar - às vezes enceno muito literalmente, tão literalmente um gracejo, como se o próprio teatro coubesse na literatura - em qualquer caso, estamos enterrando os filósofos aos poucos - para ter portos, ou navegando sobre eles - para ir mais além), terá sido porque entendeste que, assim como dinheiro faz dinheiro, amor faz amor? Ou seja, não precisamos pensar em termos de fins e meios, porque as próprias coisas que tornamos vivas se reproduzem, e seria muito frio e calculista pagar dinheiro com amor, ou amor com dinheiro - não preferimos ser quentes e letristas, como diria o humorista?

---
* Adaptado de Luís de Camões, Os Lusíadas.
** "I think the finish line's a good place we could start": Snow Patrol, Eyes Open.
*** eu sei, eu sei, mas é uma questão linguística... como tomar o predicativo/objeto pelo seu sujeito? Ou, para usar um exemplo bíblico, como tomar antes o vinho bom seria o mesmo que tomar antes o ruim (ou como equivaleríamos começar pelo fim a terminar pelo começo?)? Ademais, já que estamos em análises sintáticas, caiba explicitar a validade de algumas afirmações: apostos seguidos de sujeitos ocultos deixam vírgulas em lugares inusitados.

Receba atualizações por e-mail (vá, não são mais de 2 posts por mês)