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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Lignes de fuite: "Não façamos do amor algo desonesto" (Renato Russo)



Em 1979, Rupert Holmes abria o seu álbum Partners in Crime com a canção "Escape". Se você já foi esperto e clicou no link acima, você já ouviu esta música, acompanhada em imagens com o também popular jogo The Sims. Se você não foi esperto, é hora de ser, de um jeito ou de outro. Para quem não acompanha o inglês, há abaixo, a despeito do pleonasmo, uma tosca tradução (gosto de imaginar que Roland Barthes e Gilles Deleuze gostavam de traduções, me parece que combinam com suas filosofias; e elas não deixam de ser estranhas porque são feitas por quem, bem ou mal, sabe traduzir: isso implica que uma tradução nunca é feita para si, e é sempre uma corrupção tanto do público quanto da obra. Um efeito de literalidade é trair a linguagem e a língua. Traduzir é sempre um evento literário, e é escriturário se feito com estilo (- não é engraçado? Escolhemos nosso destino, mesmo sem saber qual é ele). Eu, pessoalmente, ou acho a tradução um mal necessário (Como não lembrar que ele é um bem para Spinoza, ou do amor fati de Nietzsche?), ou acho que não me convém. Nós, os tradutores, somos esses monstros insensíveis e histéricos. A nada somos fiéis, e isso é um jeito de bagunçar tudo. Nós, tradutores, traímos até a nós mesmos. Não há remédio: ter uma mente é traduzir, é, portanto, mentir. Só nos cabe refazer o apelo nietzscheano de mentir com elegância, e o apelo guattari-deleuzeano de preferir a coragem de trair à covardia e deselegância de trapacear):

Estava cansado da minha dama
Estivemos juntos muito tempo
Como uma gasta gravação
De um favorita canção
Então enquanto deitada dormia
Eu li na cama o jornal
E na seção de coluna pessoal
Li esta carta que havia:

"Se gostas de Piña Coladas
E ser pego na chuva,
Se não és dentro da yoga,
Se tens meio cérebro,
Se gostarias de fazer amor à meia-noite
Nas dunas do Cabo,
Então sou o amor que procuravas,
Escreva pra mim e escape"

Eu não pensei na minha dama
Sei que soa meio mau
Mas eu e minha velha dama
Caímos na mesma velha tediosa rotina
Então escrevi pro jornal
Tirei um anúncio pessoal
E embora fosse poeta de ninguém
Pensei que não estava metade ruim

"Sim, eu gosto de Piña Coladas
E ser pego na chuva.
Não sou de comida saudável,
Eu sou a fim de champagne.
Tenho que te encontrar amanhã ao meio-dia
E atravessar toda esta fita vermelha,
Num bar chamado O'Malley's
Onde planejaremos nosso escape."

Então esperei com altas esperanças
E ela entrou no lugar
Eu reconheci seu sorriso num instante
Eu conhecia a curva da sua face
Era minha própria amável dama
E ela disse: "Ah, é você."
Então rimos por um momento
E eu disse: "Eu nunca soube

Que gostavas de Piña Coladas,
Ser pega na chuva.
E a sensação do oceano,
E o gosto de champagne.
Se gostarias de fazer amor à meia-noite
Nas dunas do Cabo,
És a dama que procurei por,
Venha comigo e escape"

Pois os vivos não foram tão vivos quanto o artista, e o que aconteceu foi mais ou menos o seguinte: "Um casal bósnio está se divorciando, depois de descobrir que um traía o outro em chats na Internet. Detalhe: eles começaram o relacionamento virtual usando pseudônimos, e só descobriram a verdade quando combinaram um encontro real com os "novos parceiros".
Sana Klaric, 27 anos, e seu marido Adnan, 32, usavam os nomes de "Sweetie" e "Prince of Joy" em salas de bate-papo. Conheceram-se e iniciaram uma relação, confidenciando-se mutuamente os problemas que tinham em seu casamento. Os dois, de acordo com reportagem publicada no site Metro.co.uk, estavam convencidos de terem finalmente encontrado sua alma gêmea.
Então, resolveram marcar um encontro real para se conhecerem e descobriram a verdade. Agora, o par está em processo de divórcio, e um acusa o outro de ter sido infiel.
"De repente, eu estava apaixonada, era maravilhoso, parecia que ambos estávamos amarrados no mesmo tipo de casamento infeliz {o que ela parece nos dizer é que as aparências atraem como a verdade não o faz, pensamento estranho, mas talvez veraz: por que a virtualidade nos toca mais que a atualidade? É uma estética do devir?}", contou Sana. "Depois, me senti tão traída", disse {ela se referia à trapaça, o tão se diz: pelo marido pelo amante, e a pior de todas: a própria...}.
Adnan, continua sem poder acreditar no que aconteceu. "É difícil pensar que Sweetie, que escreveu coisas tão maravilhosas para mim, é na verdade a mesma mulher com quem me casei e que, por anos, não foi capaz de me dizer uma única palavra agradável". Você acha a notícia fácil, essa aqui eu tirei do sítio do Terra, na verdade a notícia é velha, como, enfim, é comum.
É normal ter problemas conjugais. É normal conversar com alguém sobre isso. Creio que é normal que esse alguém esteja na internete. Creio até mesmo que é normal acabar conversando com um seu conhecido, sem conhecer que é ele. É improvável, por isso acontece pouco, mas não é impossível, e por isso acontece. Tudo bem, o improvável nos fascina, vá lá. Mas não vejo muito o que fazer a não ser ficar estupefacto. O que quero comentar é o seguinte: há pessoas que não suportam o amor e ainda querem... casar! Se algo tivesse a ser pedido explicação para psicólogos, certamente não seria por que uma pessoa se apaixona, mas por que acredita na sua própria paixão.
O anormal não é encontrar em alguém o 'objeto' digno da nossa paixão. Mesmo porque não é isso que acontece, o que acontece é que nos tornamos dignos de estarmos apaixonados, e isso acontece com a primeira pessoa que aparece na frente. Certamente muitos vão discordar de mim, mas o mecanismo que eles têm em mente se chama resistência à feiúra, à burrice, à falta de tato, qual seja o caso.
Prefiro a versão de 1979, que é piegas mas não é tola ou rançosa, de um artista que teve sensibilidade suficiente para mudar o próprio nome da música (pequena grande tradução às massas e à sua própria fama), simplesmente porque as pessoas não tinham a sensibilidade para lembrar que aquela música que lhes agradara tanto, aquela, a da Piña Colada, na verdade se chamava Escape. Um nome tão propício! Esse é o nosso mundo...
Ao ser consultado sobre a própria música, Rupert disse (e eu traduzi e o lugar de onde, literalmente, tirei é: http://www.songfacts.com/detail.php?id=2896 ) : "Gosto de pensar que eles olharam um ao outro com vergonha e realizaram que antes de qualquer um correr para encontrar alguma fantasia que provavelmente não existe na realidade, eles podem reinvestigar seu próprio relacionamento porque há muito que eles ainda não exploraram. Penso que é um final feliz com nota de pé. Ambos estão um pouco chocados {com a galinhagem, se me permitem acrescentar}, mas nenhum pode apontar o dedo muito forte ao outro porque ambos estão querendo tentar um novo relacionamento e, felizmente, sua possível indiscrição os levou um ao outro de novo."
No caso presente, claro que não se trata de um ingênuo: "ã, eles deviam tentar de novo." O que eles deviam eles ficaram devendo, e ninguém deve nada a alguém do qual na verdade é credor, embora, claro, nada o impeça e mesmo se aconselhe a perdoar as dívidas, especialmente quando um é credor do vice-versa. Mas, por incrível que pareça, ninguém sabe melhor do que eles como o seu relacionamento funciona (e, principalmente, como não funciona), o que mostra também como desconhecemos nós mesmos, os outros, aquilo que amamos e aquilo que odiamos (e neste sentido são nossas próprias concepções apoucadas que atravancam nosso mais saudável devir). Mas na verdade tudo isso é não só uma crítica, mas um fato comprobatório (para aqueles que ainda querem a ciência, e a ciência nesses moldes) contra os que torcem o nariz ao relativismo. Há, volta e meia, uma espécie de sentimentos dentro de nós que nos dispõe ou indispõe com o que está à nossa volta, e, ser alegre é tão possível quanto ser triste. Aqueles que não gostarem dessa frase certamente argumentarão contra ela com um sentimento indisposto.
Mas realmente o mais importante de tudo é que a lógica não funciona quando a ética não funciona...
E se por um lado nada faz mais sentido do que abandonar a literatura, a arte está sempre transformando a existência em vida...
Últimos diálogos, com Delari:
O conto de Rupert e a novela de Zenica (essa da Bósnia): o que poderia ser mais duplo que este casal descasado, duplicado na virtualidade, odiados ou insossos amantes, rebatendo a mentiras (a trapaça, porque as traições são declaradas) com mentiras (a paixão)? E enfim nada aconteceu, mas tudo mudou. O maleável se maleou tanto que explodiu (e vai se a outro duro?). Viu além do rosto, olhou além do olhos. A esturricante claridade aqui é que os cega: nenhum segredinho sujo (eu amo outro - eu não te amo) a esconder e estamos livres, entendidos: "amor desfeito para ser capaz de amar", num caso ou no outro. Pouco basta envolver-se, mais é desenvolver-se. Desfazer-se do eu, da vaidade imperiosa, da identidade (não ter mais um nome - ter outro nome, não ter mais uma face: alguns só conseguem fazer isso, tornar-se imperceptível virtualmente; outros fazem isso exatamente para esconder segredinhos...): e não se trata de não ser notado como na multidão urbana, porque ela não ama. Em suma é desistir de ser amado sem deixar de amar. Libertar-se do passado e do futuro (o que não significa livrar-se, exatamente porque estamos falando de amor e não de sexo), afinal "Un instante cualquiera es más profundo Y diverso que el mar" (Jorge Luis Borges).
Dois jeitos de não fazer do amor algo desonesto. Pode haver mais, mas trapacear não é um deles, nada é amoroso no trapacear. O primeiro é ser fiel, fidelidade ao ser amado; e o segundo é trair, fidelidade ao amar.
Já eu, não te pergunto se posso ser teu clandestino, simplesmente me alojo ali no teu peito, com teu estranho, ambíguo consentimento...
Posso eu brincar: não levo as paixões a sério, vivo a desafiá-las.
Cabe agora um pouco despir-se das fantasias... Despir-se das fantasias, meus vindouros!
O real e o que couber nele, viver de corpos e ações.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Digerindo

Em resumo, o que consigo afirmar é solamente a vida. Nem um amor pérfido a mais. Nem um pecado inconstante. O que o eu afirma é só essa linha que ele faz, com a matéria da carne, entranhas revoltosas e incomodadas, essa linha que se desfaz nos confins do tempo, nas imemoriosas sombras das próprias carnes que se devoram precariamente, em busca de uma vida um pouquinho mais extasiante. Nem as saborosas lágrimas. Nem o pavor do vento. É a vida que me leva, despeito de eu sempre tentar seduzi-la. Batalha ingrata da minha melhor amante: eu tento afirmar mais do que existe, quero fazer acontecer, e ela me replica dando somente a si mesma, porque nada mais há para dar. O eu, presunçoso, acha pouco aquela que se dá inteira, e vive a sonhar, com mais do que tudo... Meu espírito tem grandes olhos sôfregos que gritam 'mais!' enquanto inventam a realidade. Vida! Eu te mereço mais quando estás triste do que tu me mereces quando eu estou alegre, tu mereces mais do que eu tenho pra lhe dar. Até a tristeza...! Vou tentar ser mais agradável com aqueles que vestem teu precioso manto. Toda a vontade excedente, tudo aquilo que quero para além do imediatamente possível, vêm para mim em fulgurantes sonhos. Mas eu sou o devir, e eu convido a vida para dançar.

Visto o saldo, cabe agora uma nova temática, um novo modo. Embora melhor seria se visse sempre o que consigo afirmar, o mais premente agora é circular de outro modo, mais inteligência, mais beleza, mais humor, mais concisão, mais tato, contato. As coisas vão mudando assim, aos saltos e entrelaçadas, só estou fazendo a enunciação disso. O bobo vai tomando todas as partes de mim, e as grandes demandas do eu vão esmorecendo, enquanto nascem as conquistas das demandas dos outros, que passarão a ser subjugadas democraticamente, e postas sob nova perspectiva, nova aparência, até mesmo novo conteúdo. Não é preciso que um eu passe através de um grande outro para então se tornar um grande eu? A ética será tanto maior quanto mais noções comuns houverem.

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